The living road
Atravessou a cidade pegajosa e elástica que cuspia um bafo quente e cinzento.
Escurecia rapidamente. Uma loucura de carros, bicicletas, carrinhos de mão, vacas, pessoas, cães, coelhos e porcos seguiam em toda e qualquer direcção para onde quer que existisse uma hipotética saída. Todos queriam sair.
Encontrava-se naquela rotunda há já 20 minutos .O desespero começava a toldar-lhe a visão e a ganhar a forma de um esgar facial assustador. Sendo estrangeiro desconhecia as leis anárquicas que regulavam aquelas estradas e em especial aquela rotunda.
Naquela encruzilhada ia enrolando na língua uns noodles vegetarianos que havia comprado a um vendedor ambulante que por ali passara. Digo ”Passara”porque este já se havia incrivelmente eclipsado da sua vista! E ele no entanto ainda ali continuava! Vermelho de raiva pensou que nunca mais dali conseguiria sair. Num transe imaginava-se já a viver os próximos 30 anos da sua vida naquela rotunda: ali conhecer a mulher da sua vida (que um dia por lá passara de carro a caminho do trabalho), ali com ela casar (aproveitando a passagem de um monge budista muito importante, de viagem para o Tibete , e que também ali em plena rotunda os abençoara), ali ter filhos(aproveitando uma ambulância e os seus enfermeiros que vindos do serviço ali foram interpolados e obrigados a parar para ajudar no parto que não estava fácil) e quanto aos filhos também estes dali nunca mais conseguiriam sair. Dizem que todas as famílias têm um karma, se calhar o Karma da sua futura família era precisamente aquele: o de nunca mais conseguirem sair daquela maldita rotunda. E quando morresse( e não haveria de durar muito visto que toda aquela poluição sonora e ambiental um dia mais cedo do que lhe era previsto haveria de entupir as artérias da vida)seria enviado um cartão de óbito em forma de rotunda , para os seus pais, parentes próximos e afastados informando do seu final fatal e previsível ao fim de 30 anos de vivência na rotunda entre a rue des voges, a rue de l´aire, a rue de l´soleil e a rue de l´eau (francesismos ainda alguns deixados soltos pela cidade, recordações de um longínquo passado colonial).
E os seus filhos haveriam de ter o apelido “Rotunda”nos nomes: assim , o seu filho haveria de se chamar Jor Rotunda e a sua filha Amber Rotunda. Estes aproveitariam as bibliotecas itinerantes e leriam muito e por isso não precisariam de frequentar a escola. Quando quisessem guloseimas haveria sempre um vendedor ambulante por perto. Aliás, o ponto positivo de toda esta estranha situação( que ao fim de 10 anos deixaria de ser –estranha - para se tornar familiar ) era precisamente o de não precisarem de se movimentarem pois tudo o que precisariam estaria sempre por ali disponível á distância de um lance de braço: comida, livros, roupa, bugigangas, jóias, brinquedos, revistas…de cada coisa haveria sempre um vendedor ambulante por perto. Ou se não, era só uma questão de aguardar um bocadinho pois estes não tardariam a aparecer. O aspecto mais negativo era principalmente referente ao facto de nunca terem privacidade, em especial ele e mulher… é que ás vezes gostavam de dar largas á imaginação…era aborrecido esse aspecto era. Há quem ache piada ao voyeurismo, ele até achava um bocadinho, mas caramba, aquilo era demais!
E, jornalistas de todo o mundo ,especialmente da Europa, iriam considerar toda aquela situação como deveras caricata e, ali se deslocariam a fim de tirar fotografias, filmar e fazer entrevistas.
Pensando bem aquela situação em que se encontraria não era , afinal, assim tão má!...
Quer dizer….NÃO!a suar , abanou a cabeça, deu um safanão no corpo e não! não se iria resignar nem subjugar aquela maldita rotunda! Pingando todo o molho para as calças castanhas, atirou a embalagem para a lixeira exterior, decidiu fechar os olhos e… avançar!
Coelhos, Ratos, Pessoas Avançar ! Vacas, Bois, Ovelhas Avançar ! Esquilos, Jibóias, Elefantes Avançar!
Já nada importava pois ia passar por cima de todos eles!
E assim foi.
moral da história: não têm.